terça-feira, 13 de maio de 2025

O Homem que Esqueceu de Olhar para o Céu.

O homem moderno olha para o alto e não vê nada. O céu virou apenas um fundo de tela. A árvore, um obstáculo. O mar, um destino turístico. A chuva, um incômodo. Deus? Uma ideia fora de moda, engavetada com as outras coisas que não cabem nas planilhas.

Há um vazio que cresce, mas não se vê. Um buraco na alma do tempo, feito não da ausência de coisas, mas da ausência de sentido. O homem se afastou do Sagrado — não por maldade, mas por pressa. Deixou de ver a Criação como linguagem e passou a tratá-la como recurso. A montanha virou paisagem. O animal, dado estatístico. A criança, projeto.

Deixamos de ver o invisível no visível. E com isso, fomos perdendo Deus — não o Deus das catedrais, mas o que se revela num pássaro atento, num vento que muda de direção, num grão de café que esquenta as mãos no frio da manhã.

Não se trata de religião. Trata-se de reverência. De saber que o simples não é inferior. De entender que o milagre não precisa gritar — ele sussurra, e por isso exige atenção. Um tipo de atenção que o homem atual já não pratica mais.

Vivemos num estado contínuo de distração, e o que é pior: nos orgulhamos disso. Confundimos velocidade com inteligência, produtividade com valor, excesso com potência. Mas há uma inteligência maior no silêncio de uma folha que cai do que em mil reuniões sobre métricas de sucesso.

A Criação inteira continua ali, dizendo: “olha para mim”. E o homem responde com um scroll.

Perdemos a capacidade de nos maravilhar. E sem o assombro, sem o encantamento pelas pequenas manifestações do divino, ficamos ocos. O mundo vira cenário, e nós, atores exaustos improvisando frases que não acreditamos mais.

Mas às vezes, num raro instante de pausa — quando um cheiro de mato invade a cidade, ou quando uma criança olha pra gente como se visse algo que esquecemos — há um estalo. Um retorno. Uma lembrança: o Sagrado não se foi. Fomos nós que desviamos os olhos.

A atenção plena, então, não é técnica. É humildade. É o gesto de voltar a ver com o coração aberto.
Porque quem vê Deus no simples, nunca está só.
E nunca está vazio.

A Juventude Tardia dos Inadaptados.

Cheguei à meia-idade com a nítida sensação de que alguém me vendeu um roteiro errado. Disseram que era tempo de estabilidade, de certezas, de repetir mantras como "agora é hora de colher os frutos". Mas eu só queria rasgar os manuais, mudar o nome, deixar o celular em casa e atravessar a cidade a pé, ouvindo rock e pensando em tudo que ainda não vivi.

Os outros — os da minha idade cronológica — falam em previdência, imóveis, filhos adolescentes, churrascos de sábado com conversa sobre colesterol. E eu? Eu tô pensando se não seria melhor largar tudo e ir morar num casebre à beira de um penhasco, ou abrir uma livraria-café onde só toca Nick Drake e onde ninguém é obrigado a sorrir.

Tem algo curioso acontecendo: quanto mais envelheço por fora, mais jovem me sinto por dentro. Mas não essa juventude fabricada de filtro e botox. É outra coisa. É como se um espírito novo tivesse me atravessado — um espírito que não quer se aposentar das perguntas, que recusa o conforto das certezas, que vê beleza no inacabado.

E então começo a entender: talvez a verdadeira juventude não seja um tempo cronológico, mas o momento exato em que você perde o medo de ser quem é. Quando a expectativa dos outros descola da sua pele e cai no chão como casca velha. Quando você para de tentar se encaixar e começa a dançar torto mesmo, rindo do próprio passo.

Essa juventude tardia é menos ansiosa. Ela não precisa provar nada. Ela só quer viver — mas viver mesmo, com intensidade honesta, com conversa boa, com silêncio que acolhe, com gente que não teme a profundidade. Ela quer ouvir Tom Waits e escrever cartas. Quer amar de novo — mas não como quem precisa completar um álbum de figurinhas emocionais. Amar como quem se permite.

Às vezes penso que o velho homem que fui está lá atrás, em alguma esquina, com uma pasta na mão e um discurso pronto sobre como “deveria ser a vida”. Mas eu não volto mais.

Hoje, ando descalço por dentro.
E isso, meu caro, é o mais perto da liberdade que já estive.

Crônicas de Uma Velha Raposa - A Comédia do Conforto.

Há uma hora em que até a sabedoria enjoa da própria pose.

Quando a palavra “introspecção” começa a feder a mofo e o “silêncio” vira só falta de coragem.

Vivemos dizendo que buscamos a verdade. Mas a verdade, essa palavra que parece coluna vertebral, raramente é buscada. O que buscamos, na verdade, é conforto com aparência de lucidez. E quando conseguimos um pouco, fazemos altar. Mistificamos. Repetimos.

E repetição é o disfarce mais elegante do medo.

Percebi que estava construindo uma jaula com as mesmas ferramentas com que dizia estar me libertando.
Sim, a solidão virou palco. O silêncio, um biombo para evitar confronto.
Estava tão ocupado em parecer profundo que me tornei previsível.
Tão ocupado em parecer inteiro que me petrifiquei.

Foi aí que desejei o desconforto. Desejei que alguém invadisse meu templo interno e derrubasse os incensos.
Que cuspisse na minha linguagem sagrada e dissesse: “isso aí já virou escudo.”

E se tudo que escrevo for só uma versão erudita da covardia?
E se minha lucidez for, no fundo, um medo muito bem diagramado?

Estou tentando reaprender a viver sem muralhas conceituais.
Quero expor a contradição sem precisar resolvê-la.
Quero o rasgo. O riso torto. O absurdo que Kierkegaard mastigava em silêncio.
Quero errar com liberdade, cair com estilo, enlouquecer com responsabilidade.

Talvez a sabedoria mais honesta seja aquela que desaprende.
Que arranca a própria pele e se recusa a ser estátua.
Que confronta os próprios mantras, tenciona os próprios símbolos, e quebra o que já está confortável.

Porque viver de contradições vivas ainda é melhor do que morrer sob certezas mortas.