domingo, 31 de maio de 2009
Aula de Vôo
_ Você sabia que eu viria, não é? – disse finalmente, baixinho.
_ Claro que sabia. – Ela estava ocupada de novo, de costas para ele.
_Então eu não estava livre para deixar de vir? Eu não tinha opção?
Papai se virou de novo para encará-lo, agora com farinha e massa nas mãos.
_Boa pergunta; até que profundidade você gostaria de ir? – Ela não esperou resposta, sabendo que Mack não tinha. Em vez disso, perguntou:
_Você acredita que esta livre para ir embora?
_ Acho que sim. Estou?
_ Claro que está! Não gosto de prisioneiros. Você está livre para sair por essa porta agora mesmo e voltar para sua casa vazia. Mas eu sei que você é curioso demais para ir. Será que isso reduz sua liberdade de partir? Ela parou apenas brevemente e depois voltou para sua tarefa, falando com ele por cima do ombro.
_ Se você quiser ir só um pouquinho mais fundo, poderíamos falar sobre a natureza da própria liberdade. Será que liberdade significa que você tem permissão para fazer o que quer? Ou poderíamos falar sobre tudo o que limita a sua liberdade. A herança genética de sua família, seu DNA específico, seu metabolismo, as questões quânticas que acontecem num nível subatômico onde só eu sou a observadora sempre presente. Existem as doenças de sua alma que o inibem e amarram as influências sociais externas, os hábitos que criaram elos e caminhos sinápticos no seu cérebro. E há os anúncios, as propagandas e os paradigmas. Diante dessa confluência de inibidores multifacetados, o que é de fato a liberdade?
Mack ficou ali parado, sem saber o que dizer.
_ Só eu posso libertá-lo, Mackenzie, mas liberdade jamais pode ser forçada.
_Não entendo. Não estou entendendo o que você acaba de dizer.
Ela se virou e sorriu.
_ Eu sei. Não falei para que você entendesse agora. Falei para mais tarde. No ponto em que estamos você ainda não compreende que a liberdade é um processo de crescimento. Estendendo gentilmente as mãos sujas de farinha, ela segurou as de Mack e, olhando-o direto nos olhos, continuou:
_ Mackenzie, a Verdade irá libertá-lo, e a Verdade tem nome. Neste momento ele está na carpintaria, coberto de serragem. Tudo tem a ver como ele. E a liberdade é um processo que acontece dentro de seu relacionamento com ele. Então todas essas coisas que você sente borbulhando por dentro vão começar a sair.
PROPÓSITO.
"A desenfreada defesa do bem comum impede as pessoas de compreenderem as causas de seus sofrimentos, e conseqüentemente, de se tornarem capazes de estabelecer um verdadeiro propósito em suas vidas."
Leon Tolstoi
"Pois tudo, absolutamente tudo, nos céus e na terra, visível e invisível, principados e potestades celestiais – tudo começou nele e encontra nele seu propósito."
Colossenses 1.16 [Eugene Peterson’s The Message]
Fica cada vez mais evidente que o bem comum foi ‘descomunizado’ em detrimento ao ‘um’, ao ‘eu’. Na esteira do tempo, vemos o homem desfacelando o ‘óikos’ e todo esboço de vida familiar, para afirmar seus interesses, intentos e propósitos. E nesta busca pela afirmação “O“ propósito se perdeu em nossa consciência. Deixando de lado as especulações científicas sobre o texto vamos voltar nossos olhos para o que a essência de Gênesis 1.26-28 nos transmite: Refletir a natureza divina. Na verdade, é isso que O Criador estabeleceu para nós como propósito, uma vida de amor e harmonia com a criação, não como meras peças num jogo, como muitos insistem em afirmar. Da mesma forma que o egoísmo e a independência de Adão e Eva custaram a ruptura com a plenitude relacional em que viviam, com Deus e entre si, até hoje a humanidade permanece vagando em busca de sentido pra sua existência, como filhos perdidos ou pródigos em busca da sua família. Embora o amor de muitos seja uma chama que vem se esfriando com o passar dos anos, o amor que procede do coração de Deus permanece inabalável. E a personificação deste amor está em Jesus, o Unigênito de João 3.16 que se torna o Primogênito da família constituída na nova aliança, com o selo Espírito de Adoção, registrada como que em um testamento nas cartas destinadas às igrejas de Roma e Eféso (Romanos 8.28-30 e Efésios 1.3-6;3.11,14-15), bem como aos judeus convertidos ao Caminho (Hb2.10-12). O que, enquanto discípulos de Jesus buscamos intensamente, é o conhecimento deste amor, que foi tão banalizado, negociado, tripudiado e fatalmente desconhecido de muitos de nós. No seu comentário sobre a carta aos Romanos, Barth concluí que: “é justamente em nosso desconhecimento de Deus e na observação do padecimento da criação que estão os elementos básicos – o aço e a dura rocha – que ao se chocarem em Espírito e em Verdade, produzem o terceiro elemento: a centelha [criatura] que leva ao conhecimento do Deus [até então] desconhecido. Esta chama que assim surge é a inconsciente tomada de consciência da existência de Deus e também do desconhecimento consciente da vaidade de nossa existência. Esta chama é o amor a Deus”.
O nosso humanismo e egocentrismo por vezes nos impulsiona ao engano, e sobre o que estamos compartilhando existem dois pontos que precisam estar bem claros:
1. Muitos acreditam que nosso alvo, nosso objetivo de vida é chegar ao céu. É extremamente compreensível como vemos na abordagem de Cirilo de Alexandria: “De fato, o céu para os homens era absolutamente inatingível e a carne nunca penetrara antes no puro e santíssimo lugar dos anjos. Cristo foi o primeiro que inaugurou para nós aquela via de acesso. E ensinou aos homens a maneira de chegar ao céu, oferecendo-se a Deus Pai como primícia dos mortos e dos que jazem na terra e manifestando-se como primeiro homem aos que vivem no céu.” A missão de Jesus é claramente redentora e salvífica, mas também vem estabelecer o Seu Reino! É necessário que entendamos a salvação não como o fim, mas o meio para do propósito eterno, que nada mais é que a soberana vontade Deus, estabelecida desde antes da fundação do mundo (Ef. 1.4).Imaginemos que o propósito de Deus fosse salvar os homens. Neste caso o pecado estaria dentro do próprio plano de Deus, fazendo-o cúmplice do pecado. Ao dizer ao homem “não coma deste fruto”, na verdade desejaria que o homem comesse e pecasse, ficando perdido e em trevas, para que ele o pudesse salvar.
2. O que se entende por vocação e chamamento também entra no viés humanista e centrado nas nossas vontades, onde muitos querem desenvolver o seu ministério pessoal, porque possuem um chamado tremendo e/ou um testemunho impactante. Este espectro meritocrático que poluí a mente de muitos no Corpo precisa ser banido e dar lugar à compreensão de que quando abraçamos o propósito de Deus o mesmo passa a ser o nosso chamado, a nossa vocação (Rm 8.28-30; 2 Tm 1.8,9). E este de fato é um chamado maravilhoso! Nos tornamos participantes do propósito eterno do Sagrado em dois sentidos: a) sendo filhos, à semelhança de Jesus, e b) sendo cooperadores de Deus através da proclamação (kerigma) do seu Reino, entendo que o propósito eterno não se restringe as barreiras que convencionalmente impomos.
Quando temos Jesus centralizado em nossa vida, e abraçamos nosso chamado com amor podemos de fato fazer parte desta família de muitos filhos semelhantes a Jesus.
Nesta declaração vemos quatro princípios que definem o propósito eterno de Deus:
Unidade – um família > Jo 17.20-22; 1Co 1.10-12; Fp 2.1-4
Quantidade – de muitos filhos > At 5.14; Cl 2.19
Qualidade – semelhantes a Jesus > Mt 11.29; Jô 13.14-17
Finalidade – para a glória de Deus Pai > Jo 17.4; Rm 11.36
sábado, 23 de maio de 2009
Há qualquer coisa de podre na arte contemporânea
Não gosto muito de ler polemistas, sobretudo cronistas de jornais.
Fico meio desconfiado de suas posturas e intenções. Esse papo esquerda-direita, embate ideológico (ou vaidosa tertúlia intelectualóide) do tipo Veja X Carta Capital já me cansou. Teimo, e isso pode ser o tal pecado do julgamento, em achar que é a falta de assunto que os motiva. Mas a "zica" e a ironia é que polemistas acabam por prestar bons serviços à nossa inteligência e fígado – pelo menos dou boas, muito boas risadas. Nos dão coceira mental. E são lutadores, devo admitir. "Polemistés", no grego, quer dizer guerreiro. Os caras gostam de brigar!
Um dias desses, pondo meu arquivo de recortes de jornais em dia, dei com os olhos num texto meio amarelado de Arnaldo Jabor (Segundo Caderno, O Globo, 11/11/2003), que me salvou a manhã tediosa. Eis um polemista! Nem Cony, nem Maynardi: Jabor. Que "Caros Amigos", "Piauí", que nada: Jabor! O rei da ironia debochada... e edificante! Nessa coluna escrita há seis anos, o cineasta-que-virou-colunista abre o coração(!) e conta de uma visita-retiro espiritual, quase, a Veneza.
"Depois de dois anos sem sair do país" - ele contava - "impregnado de todos os bodes do Brasil e do Mundo, pois minha profissão atual é ser esponja das notícias e dos fatos que elas escondem".
Eram os cinzentos dias pós-11 de Setembro. Jabor se refugia na espantosa beleza da cidade e nas obras da Renascença que atulham aquela antiga República do comércio entre o Oriente e o Ocidente... Tintoretto, Veronese, Ticiano. Fiquei dias dentro da Scuola Grandi di San Rocco... Extasiado, purificado, renovado, caí na besteira de visitar um templo da Arte Moderna, a casa de Peggy Guggeheim, onde se empilham os primórdios da Modernidade artística do Século XX".
Sua conclusão é - pasmei - a minha:um show de contrastes que me deu uma certeza: há qualquer coisa de podre na arte contemporânea... há uma ausência de esperança que danifica a obra de arte. Isso mesmo: esperança".
Caramba, tenho um irmão-de-armas na minha dor de ver o lixo sendo tratado como arte: Jabor! Tenho um companheiro no mal-estar que invade ao dar uma olhadeda nas Bienais: Jabor! Ele, como eu, acreditamos na beleza e na esperança que uma obra de arte, simplesmente por produzir na alma da gente genuína fruição poética, o prazer do belo. Ele, como eu, cita Stravvinsky, enchendo a boca: “A obra de arte tem de ser exaltante”.
Sua crônica termina com uma pergunta contundente:Será que ‘o novo‘ não pode ser ‘um belo‘ que denuncie, com sua luz, sua esperança, a injusta vida?".
Jabor enfrenta, portanto, até mesmo a pergunta célebre de Adorno e de seus companheiros da Escola de Frankfurt, corrente filosófica de origem judaica-alemã: "Qual o sentindo de se escrever poemas depois do horror de Auschwitz?" O mesmo de sempre: fruição estética, denúncia (como o fazem também os profetas), expressão de toda gama de sentimentos (como o fazem também os salmistas), celebração e relevância.
Estou cheio da feiúra! Farto do cinza-escuro da fumaça escatológica de Blade Runner e seus congêneres menores, esse cinema do caos futurística e dos clichês baratos. Estou farto de Gerald Thomas e seu anti-teatro pseudo-cult. Estou farto do Trash (êta definição mais acertada) Metal e seus grunhidos sem sentido - e daqueles que chamam isso de música.
Música? Música é Bach, Jobim, Mozart, Lenine – melodia, harmonia, ritmo – a velha trinca. Gente, ruído não é música. Por favor! John Cage, Schoenberg, Miles Davis e toda gente do Free Jazz mais doido de tão outside que me perdoem! Quero melodias que me arrebatem! Estou farto dessa arquitetura besta das nossa cidades enfumaçadas do Novo Mundo Capitalista, que confunde gente com pombos. Não há beleza num pombal, por mais assimétrico que sejam suas formas. Estou até aqui dessa dança feia dançada por corpos idem de tão expostos e distorcidos, coreografia da decadência. Estou aturdido de tantos pseudos-Pollaks e seus quadros que, ok, se expressam algo do artista expressam seu ...vazio. Não precisa ser um retrato do Real, mas que não me angustie com o Nada. A Arte Moderna é velha como o Universo pré-edêmico: sem forma e vazia. Sem limites. Sem beleza. Estou enjoado dessa poesia do lixo, e olha que não sou contra a fragmentação de um Guimarães Rosa e de um Graciliano Ramos. Vejam como escrevem bem (bonito)! Poetas de verdade descrevem o lixo com luxo:
O Bicho (Manoel Bandeira )
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.
A contribuição de Schaeffer , ao tentar construir uma visão cristã do Ocidente e da Arte, pode ser até equivocada (senão ultrapassada) em alguns pontos (Brian McLaren, por exemplo, pensa assim), mas sua afirmação de que não há Graça na arte moderna é mais do que adequada.
A arte ficou sem Graça/graça, com maiúsculo e minúsculo.
Mas volto a Jabor: há mesmo qualquer coisa de podre na arte contemporânea. A poesia está mal das pernas. Vivemos em um mundo de prosa. Em um mundo de prosa, tudo fica prosaico, vulgar, material, sem elevação, corriqueiro, chão. A feiúra da Arte é o retrato do coração do homem de hoje, prosaico, feio, não-espiritual. O Real é belo, é Deus. Deus vive na realidade. Mas não temos olhos para ver o Real. O Belo é real. Minha querida Adélia Prado está certa: "só o visionário vê o real". Jabor, danado, que visionário é você! Deus o abençoe!
Publicado em: Cristianismo Criativo
segunda-feira, 11 de maio de 2009
Boas novas...
O desafio continua sendo colocado, relacionamento acima de tudo, corra dele e as coisas não irão ficar muito boas...
Talvez esse tenha sido nosso grande problema, fugir do próximo, quando nele está algumas respostas que precisamos....
Vou insistir então...
Então, vamos viver as possibilidades do viver em comunhão?
"Para chegar a Deus você precisa passar pelo homem. Para Deus chegar em você Ele também precisa passar pelo homem. Não existe contato direto com Deus, isto é, todo contato entre o humano e o divino é mediado por um outro humano. O humano é ponte entre o humano e o divino. O humano é ponte entre o divino e o humano. Toda vez que você pretender um contato imediato com Deus, deixando de lado a ponte humana, isto é, a horizontalidade que Ele mesmo providenciou, você vai cair num abismo sem fim, isto é, vai experimentar o vazio, aquele sentimento de estar falando com ninguém. É isto o que o Evangelho ensina quando afirma que “existe apenas um Mediador entre Deus e os homens: Cristo Jesus, homem”
(1Timóteo 2.5).
“A distância que vai entre a janela e os meus olhos determina o que vejo lá fora na rua. Se fico mais perto, a visão se alarga; se fico de longe, a visão se estreita. Se vou à esquerda, enxergo a praça; se vou à direita, enxergo a torre. Sou eu que determino o que aparece lá fora na rua para servir de panorama aos meus olhos. Mas nem por isso é falso ou errado aquilo que vejo e descrevo, pois não sou eu que crio as coisas que aparecem lá fora. Já existiam antes de mim. Não dependem de mim. É útil e até necessário que cada um defina bem clara e honestamente aquilo que vê pela sua janela. Isso redundará em benefício da análise que se faz da realidade da vida. O que me consola é que todos somos assim. Bem limitados e condicionados pelos próprios olhos, dependentes uns dos outros. É trocando as experiências, numa conversa franca e humilde, que nos ajudamos a enxergar melhor as coisas que vemos, e a romper as barreiras que nos separam sem razão. Pois ninguém é dono da verdade. Intérprete só”.
Carlos Mesters
