segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
COM QUANTOS RASCUNHOS SE FAZ UMA VIDA?
Na cabeceira da página, Providências. Um pouco abaixo, a data. Em seguida, numeradas, todas as ações das quais não posso me esquecer. Algumas, mais complicadas, exigem desdobramentos, pequenas resoluções para que a grande se resolva. Porque as vi depois, já carregam as marcas de como vivi naqueles dias sob aquelas providências. Algumas, simplesmente ticadas, bola para frente. Outras, com uma ou várias interrogações ao lado. A vida é mais imprecisa e desobediente que gostaríamos. Outras, com um traço, constatei, que riscava as palavras grosseiramente. Obrigações com gosto ruim que vamos deixando pelo caminho. Outras, sem marca nenhuma. Terá faltado tempo? Foi muita providência para pouca vida? Não consegui me lembrar.
Meu susto veio com uma revelação inquietante. Aquelas listas colecionadas em meu pequeno bloco, ou avulsas e esquecidas pelas gavetas, eram o rascunho de como vivi. Vivi para aquelas providências. Vivi para ticar o que cumpri. As rasuras não eram apenas as marcas feitas sobre palavras. Eram rasuras do modo como existi naqueles dias. Meu Deus! Quantas interrogações deixei pelo caminho? E a mais grave das revelações, se aquelas listas de providências rascunharam os meus dias, então não me preparei para a felicidade. Preparei-me somente para resolver problemas. Para funcionar.
Esqueci-me de rascunhar os instantes agradáveis. Um dia com as crianças na praia. O próximo livro a ser degustado. Um filme imperdível. Uma noite inesquecível ao lado da minha linda Bete. Um capítulo de “Law & Order” ao lado da Cacá. Uma corrida com os parceiros da próxima maratona. Os devaneios mais recentes do Márcio. Um texto escrito com taquicardia. Conversas profundas e inquietantes com o Ricardo. Boas gargalhadas com os amigos. Que aconteceram. Mas bem menos que poderiam. Incidências entre as interrogações das atitudes mais sérias que tomei. Tudo errado.
Tomei uma decisão. Esses não podem ser os rascunhos da minha vida. Não posso escrevê-la com uma pauta tão sisuda e infeliz. Preciso preparar-me para a alegria e não apenas para livrar-me dos problemas. É isso. Vou rascunhar de agora em diante uma vida com mais beleza, afetos, amigos, vinho, poesia, música. Mais Bete, Cacá, Bibi e Tatá. Sei que não posso livrar-me das outras providências. Mas elas terão que viver à sombra das minhas novas providências. Rascunharei dias mais belos.
Depois de me escandalizar com os meus rascunhos, assustei-me alegremente também com uma compreensão corrigida das palavras de Jesus. Sempre as pensei com uma dose de moralismo. Honestidade, castidade, fidelidade, justiça e tantas outras atitudes corretas, mas muito mais exigentes e sérias que a vida exige ou permite. Entendi que não é disso que fala o texto de Mateus 6.22-25, depois de descrever as bem-aventuranças (uma vida feliz), Jesus ensina a não deixar a vida ser gasta pelos cuidados, ou pelas listas de providências. Ensina-nos a rascunhar a vida como mais luz. Veja.
A candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz; e, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso. Se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas! Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom. Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo mais do que o vestuário?
(Grifo do autor)
Olhos que só enxergam os problemas quando pro-videnciam são olhos sem luz. São rascunhos de trevas. Não é a vida mais que os problemas, e o corpo mais que o trabalho?
Para o próximo ano, novos rascunhos. Tudo bem! Eu sei que não dá para evitar os problemas a serem ticados, nem as obrigações ruins a serem rasuradas. Quem me dera viver sem as interrogações sobre minhas tarefas. Mas é possível rascunhar a vida com mais leveza, doçura, afeto, descontração. Vamos rascunhar boas gargalhadas? Mais amigos? Mais beleza? Mais vida? Mais luz? Se teus rascunhos forem trevas, que grandes trevas serão. Mas se forem rascunhos luminosos?
Para o próximo ano, melhores rascunhos e uma vida mais luminosa!
Publicado por Elienai em: http://elienaijr.wordpress.com/
"Para chegar a Deus você precisa passar pelo homem. Para Deus chegar em você Ele também precisa passar pelo homem. Não existe contato direto com Deus, isto é, todo contato entre o humano e o divino é mediado por um outro humano. O humano é ponte entre o humano e o divino. O humano é ponte entre o divino e o humano. Toda vez que você pretender um contato imediato com Deus, deixando de lado a ponte humana, isto é, a horizontalidade que Ele mesmo providenciou, você vai cair num abismo sem fim, isto é, vai experimentar o vazio, aquele sentimento de estar falando com ninguém. É isto o que o Evangelho ensina quando afirma que “existe apenas um Mediador entre Deus e os homens: Cristo Jesus, homem”
(1Timóteo 2.5).
“A distância que vai entre a janela e os meus olhos determina o que vejo lá fora na rua. Se fico mais perto, a visão se alarga; se fico de longe, a visão se estreita. Se vou à esquerda, enxergo a praça; se vou à direita, enxergo a torre. Sou eu que determino o que aparece lá fora na rua para servir de panorama aos meus olhos. Mas nem por isso é falso ou errado aquilo que vejo e descrevo, pois não sou eu que crio as coisas que aparecem lá fora. Já existiam antes de mim. Não dependem de mim. É útil e até necessário que cada um defina bem clara e honestamente aquilo que vê pela sua janela. Isso redundará em benefício da análise que se faz da realidade da vida. O que me consola é que todos somos assim. Bem limitados e condicionados pelos próprios olhos, dependentes uns dos outros. É trocando as experiências, numa conversa franca e humilde, que nos ajudamos a enxergar melhor as coisas que vemos, e a romper as barreiras que nos separam sem razão. Pois ninguém é dono da verdade. Intérprete só”.
Carlos Mesters

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