domingo, 4 de janeiro de 2009

Guerra e ética

por Leonardo Boff


Toda guerra é perversa porque viola o mandamento da ética natural de ''não matarás''. Mas há problemas: se um país é agredido por outro, que fazer? Tem direito de se defender por força defensiva? Como devem se comportar os governantes dos povos que assistem à limpeza étnica de minorias por parte de ditadores sanguinários que ainda violam sistematicamente direitos humanos, eliminando seus opositores? Vale alegar o princípio da não-intervenção em assuntos internos de Estados soberanos e assistir, passivos, a crimes contra a humanidade? Como reagir ao fenômeno difuso do terrorismo que pode utilizar armas de extermínio em massa e vitimar milhares de inocentes? Contra isso é legítima uma guerra preventiva?

São questões éticas que ocupam mentes e corações nos dias atuais. Para não desesperar temos que pensar. No mundo inteiro, dada a estratégia dos EUA de usar a força para fazer valer seus interesses globais, gerou-se um debate extremamente sério. Sobressaem várias posições. Um grupo numeroso sustenta a tese: dada a capacidade devastadora da guerra moderna que pode até comprometer o futuro da espécie e toda a biosfera, não há mais nenhuma guerra justa (ius ad bellum). Outro grupo afirma: pode haver guerra justa, a ''intervenção humanitária'', mas limitada para impedir o etnocídio e crimes de lesa-humanidade. Outro grupo, representando o establishment global, reafirma: há que se resgatar a guerra justa como autodefesa, como punição de países do ''eixo do mal'' e como prevenção de ataques com armas de destruição em massa.

Façamos um juízo ético sobre estas posições: nas condições atuais toda guerra representa risco, pois dispomos da máquina de morte, capaz de destruir a humanidade e a biosfera. A guerra é meio injusto. Dentro de uma política realista, uma ''intervenção humanitária'' limitada é teoricamente justificável,sob duas condições: não pode ser decidida por um pais singular, mas pela comunidade das nações (ONU) e deve respeitar dois princípios básicos (ius in bello): a imunidade da população civil e a adequação dos meios (não podem causar mais danos que benefícios). A força empregada como autodefesa não a torna boa, mas se justifica dentro da estrita adequação dos meios. A guerra de punição, como a do Afeganistão, se baseia na vingança e não é defensável. Só alimenta raiva, caldo de futuros conflitos. A guerra preventiva, contra o Iraque, é ilegítima porque se baseia sobre o que ainda não é e pode não acontecer. Nenhum direito lhe concede legitimidade por ser subjetiva e arbitrária.

Tudo isso vale em teoria, pois importa clarear posições. Praticamente porém, se mostrou que todas as guerras, mesmo a de ''intervenção humanitária'' não observam os dois critérios, da imunidade da população civil e da adequação dos meios. Não se faz distinção entre combatentes e não- combatentes. Para enfraquecer o inimigo se destrói sua infra-estrutura, com mortes de inocentes (98%). Os efeitos da guerra perduram por anos e até por séculos como no caso do urânio empobrecido. A guerra não é solução para nenhum problema. Devemos buscar novo paradigma, à luz de Gandhi e de Luther King Jr., se não quisermos nos destruir: a paz como meta e como método. Se queres a paz, prepara a paz.

fonte: http://jbonline.terra.com.br
[21/FEV/2003]

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"Para chegar a Deus você precisa passar pelo homem. Para Deus chegar em você Ele também precisa passar pelo homem. Não existe contato direto com Deus, isto é, todo contato entre o humano e o divino é mediado por um outro humano. O humano é ponte entre o humano e o divino. O humano é ponte entre o divino e o humano. Toda vez que você pretender um contato imediato com Deus, deixando de lado a ponte humana, isto é, a horizontalidade que Ele mesmo providenciou, você vai cair num abismo sem fim, isto é, vai experimentar o vazio, aquele sentimento de estar falando com ninguém. É isto o que o Evangelho ensina quando afirma que “existe apenas um Mediador entre Deus e os homens: Cristo Jesus, homem”   

(1Timóteo 2.5).

“A distância que vai entre a janela e os meus olhos determina o que vejo lá fora na rua. Se fico mais perto, a visão se alarga; se fico de longe, a visão se estreita. Se vou à esquerda, enxergo a praça; se vou à direita, enxergo a torre. Sou eu que determino o que aparece lá fora na rua para servir de panorama aos meus olhos. Mas nem por isso é falso ou errado aquilo que vejo e descrevo, pois não sou eu que crio as coisas que aparecem lá fora. Já existiam antes de mim. Não dependem de mim. É útil e até necessário que cada um defina bem clara e honestamente aquilo que vê pela sua janela. Isso redundará em benefício da análise que se faz da realidade da vida. O que me consola é que todos somos assim. Bem limitados e condicionados pelos próprios olhos, dependentes uns dos outros. É trocando as experiências, numa conversa franca e humilde, que nos ajudamos a enxergar melhor as coisas que vemos, e a romper as barreiras que nos separam sem razão. Pois ninguém é dono da verdade. Intérprete só”.

Carlos Mesters


"A justiça divina existe, mas Deus quer nos ver lutando pela justiça humana - implementada no curto prazo e não apenas no longo prazo; neste mundo e não no próximo; dentro do tempo e do espaço, não na infinitude e na eternidade"