sábado, 20 de dezembro de 2008
A denominação dos meus sonhos
Sou batista e acho que não saberia ser outra coisa. Fui acusado de adúltero, de homossexual, de herege, de liberal, de renovado, de fundamentalista, de conservador, de comunista e de reacionário. Fui chamado de biblicista-literalista e de negador das Escrituras. Fui dado como moribundo, como atropelado, cirurgiado e às portas da morte. Enviuvaram minha esposa, deram-me outra, sem que eu soubesse e quisesse. Fui chamado de “novo Lutero” e de “estropício” (seja lá o que isso seja). Até de torcedor do América do Rio me chamaram ... Isto tudo, nunca por incrédulos, que estes sempre me respeitaram (torcer pelo América não é desrespeitoso, mas sou bangüense). Fui chamado assim por batistas, irmãos e pastores. São esses que temo. Como sabem machucar! Mas entendo porquê agiram assim: quando as razões faltam, lama é um bom substituto. E lama, em nosso meio, gruda bem.
Mas continuo batista. Fiel aos princípios históricos e doutrinários dos batistas. E como é coerente a doutrina batista! E que coisa mais linda os princípios históricos dos batistas, pelos quais muitos de nossos antepassados deram a vida! Mas hoje estou bastante desconfortado com o que chamam de “denominação”. E, para mim, chamam equivocadamente. Denominação, no meu entendimento, são as doutrinas batistas e as igrejas que as sustentam há séculos. O que alguns chamam de “denominação”, entendo e chamo de “estrutura”. Fui homem de estrutura, de fechar com ela, em suas decisões. Hoje, sinto-me cada vez mais distante dela e, mesmo que seja chocante dizer isto, bem pouco interessado em seus destinos. Sinto-me até assustado em pensar que ela, muitas vezes, é inimiga do que entendo como denominação. Por isso que, ao falar da denominação dos meus sonhos, quero falar do ambiente estrutural dos meus sonhos. Usarei o termo como entendido pelos demais, em desacordo com minha própria visão, mas para facilitar o entendimento do que digo. Quero falar como é a vida na estrutura denominacional dos meus sonhos.
A denominação dos meus sonhos é aquela que entende que a pedra de toque do trabalho batista é a igreja local. E que o homem chave da denominação é o pastor da igreja local. Do ponto de vista do Novo Testamento, a única organização reconhecida e legitimada é a igreja local. Assim sendo, a denominação dos meus sonhos é aquela em que juntas e instituições não chamam a igreja para orbitar ao seu redor, mas se vêem como servas das igrejas. A denominação dos meus sonhos é aquela em que a estrutura se vê como o que deve ser: pára-eclesiástica, ou seja, ela existe para estar ao lado da igreja. O que chamamos de pára-eclesiástico, deveria ser visto como pára-denominacional. Mas a estrutura se vê como quem serve à igreja. A denominação dos meus sonhos não tem arcebispos humanos nem estruturais. É respeitadora e valorizadora do sistema congregacional. Não usa a igreja como seu mercado, mas serve-a. Não lhe empurra programas, mas procura saber o que ela deseja, para atendê-la. Porque é a igreja local que a mantém e é para a igreja local que ela existe, secundariamente. Primariamente, existe para servir a Deus. Secundariamente, para servir a igreja local.
A denominação dos meus sonhos é aquela em que os negócios são tratados com clareza, urbanidade e amor. Nunca em tramóias e fofocas urdidas em bastidores, denegrindo a honra alheia. É aquela em que as pessoas são escolhidas para ocupar funções por sua capacidade, por sua liderança cristã, pela sua probidade e habilidade em lidar com a coisa pública e com pessoas. Nunca são escolhidas por motivos inconfessos, para impedir a ascensão ou a presença de outros que não “fecham” com os detentores da informação e do poder. É aquela em que ineptos são afastados, com misericórdia, mas com decisão, em vez de se criarem cercas ao seu redor para mantê-los na função, mesmo estando eles desmoralizados e rejeitados.
A denominação dos meus sonhos vive em cooperação denominacional autêntica. Isto é mais que contribuir com 10% das entradas para o Plano Cooperativo e com o levantamento das ofertas missionários. Mas é aquela onde ninguém é rival de ninguém e ninguém procura lucrar às custas de ninguém. Vive-se em solidariedade. Um exemplo: a Faculdade Teológica Batista de Campinas (escrevo sem ter vínculo com ela, a não ser que minha filha lá estuda) pulou de 100 para 200 alunos. Está contígua às instalações de outra junta denominacional, instalações estas que estão fechadas e desativadas. Mas não podem ser lhe cedidas. Cooperação denominacional é ajuda mútua e não apenas repasse de dinheiro. Porque o fim é mútuo: o serviço da estrutura às igrejas. As próprias igrejas trabalham em harmonia e os pastores não vivem em competição, lutando por espaço. Lutam e vivem em solidariedade, apoiando-se mutuamente e planejando em comum. Não se procura fazer carreira denominacional pisando nos ombros dos outros. Os outros não são o inferno, como na peça de Sartre, mas são oportunidade de serviço a Deus.
Na denominação dos meus sonhos ninguém é marginalizado por pensar diferente. Não se buscam clones. A estrutura (ou as pessoas que detém o poder nela e pensam que são ela) não se põe acima das igrejas e não lhes diz o que fazer ou não fazer para que sejam batistas. Uma igreja consagra uma mulher ao ofício pastoral e é desligada da convenção estadual a qual pertence. Uma outra convenção estadual vota aceitar consagração de mulheres ao ofício pastoral. Passamos a ter duas eclesiologias batistas diferentes. O certo ou errado agora depende de geografia. Esta situação insólita e surrealista sucedeu porque a estrutura perdeu de vista seus objetivos e seus limites. Passou a se ver como paradigma doutrinário ou eclesiológico. Deixou de ser serva e passou a ser juíza.
Um líder denominacional, depois de ocupar a presidência convencional, deixou escapar uma triste frase: “estou firmemente convencido de que os caminhos do reino não passam pela nossa estrutura denominacional”. Na denominação dos meus sonhos não sucede assim, mas os caminhos da denominação se identificam com os do reino. Porque o reino de Deus é posto em primeiro lugar. Os valores espirituais são priorizados e há temor no serviço cristão. Em Perestroika, novas idéias para meu país e para o mundo, Gorbatchev declarou que as estruturas são criadas para viabilizar idéias mas, não raro, apossam-se das idéias e se tornam fins em si mesmas e não meio. Passam a usar a idéia para justificar sua existência. Na denominação dos meus sonhos não é assim. A estrutura não é fixista nem autoperpetuante. É meio para se chegar a um fim e é por este critério que deve ser avaliada. Não se tenta perenizar organizações que as igrejas não querem, que os crentes não querem e não se as empurra para as igrejas para que então “sejam batistas”. Em Vinhos novos em odres novos, Snyder diz que toda organização ou programa de igreja que precise constantemente de empurrões pastorais e de apelos para funcionar, deve ser deixado de lado. O povo não o quer. Na denominação dos meus sonhos, a ênfase é treinar pessoas para que estas cumpram sua missão, e não cumprir programas para ocupar as pessoas. É, portanto, em obreiros e não em organizações. Nos dons que Jesus deu à sua igreja e não em programações que não podem ser abandonadas e que, quando se fala em mudá-las é como se atacássemos o bebê de alguém. Na denominação dos meus sonhos buscam-se alternativas para que a igreja melhor desempenhe sua missão (e esta não significa batizar alguns para dizer que cresceu, mas modificar o contexto que está inserida) e desembaraça-se do que não funciona, e é rejeitado pelas igrejas. Na denominação dos meus sonhos, a criatividade sadia é vista como dom de Deus, buscada e valorizada, e não como ameaça satânica porque ameaça o statu quo funcional e programático da estrutura.
Por isso, na denominação dos meus sonhos, os pastores e as igrejas que estão apresentando novos caminhos, novas alternativas para evangelizar o mundo e transformar a sociedade e estão conseguindo, são chamados a ensinar, a compartir o que estão fazendo, e não postos de lado como perigosos, como desintegradores, como novidadeiros. E as igrejas que estão assim fazendo são objeto de atenção e não motivo de desconfiança.
Na denominação dos meus sonhos, os pastores são amigos e não trocam tiros entre si. O ambiente é de confiança e não de relacionamentos ambíguos. É o ambiente em que as pessoas são vistas e respeitadas pelo seu valor, inclusive os obreiros são assim tratados pelos obreiros, e não pela sua utilidade para consecução de algum propósito, sendo logo descartados quando não podem mais ser usados pela estrutura.
A denominação dos meus sonhos, infelizmente, não é a denominação em que vivo. Mas eu gostaria que fosse. Na realidade, sendo sincero, não sei se estou disposto a lutar para ter uma denominação assim, como idealizo. Estou muito frustrado. E até mesmo magoado. E achei uma igreja admirável para a qual “vendi a minha alma” e espero gastar o tempo que ainda me resta de vida naquilo que mais me dá realização hoje: o pastorado de igreja local. Mas sei que uma denominação assim é necessária para que outros não se desiludam e para que alguns dos desiludidos voltem a se perfilar no trabalho denominacional ou, melhor dizendo, estrutural. Não que me julgue a personificação dos descontentes ou que esteja credenciado a falar por eles. Falo em meu nome. Mas ouvi muitos deles e sei que se não tivermos mudanças significativas, muitos obreiros mais hão de se distanciar. Talvez irremediavelmente. Nossos maiores problemas hoje são a hiper-institucionalização e a hiper-estruturação, que ameaçam a autonomia e a soberania da igreja local. É por isso que muitas delas estão se afastando. Não querem a tutela da estrutura. Querem serviço dela a seu favor. Se cremos na ação do Espírito Santo em nossas igrejas, deixemos que ele sopre. Tudo que não for dele não permanecerá. Mas não sejamos achados lutando contra Deus. É um dado para pensarmos: todos os grandes avivamentos surgiram fora da estrutura e muitas vezes tiveram que lutar contra ela para que Deus agisse. Não presumo que o avivamento de que precisamos seja em termos de liturgia ou de volume de decibéis. Penso que virá em forma de renovação de estruturas denominacionais e eclesiásticas, mudando o que imobiliza e engessa para que a igreja deslanche e cumpra sua tarefa.
Creio que está na hora de mudar. Para que tenhamos uma denominação que seja de todos e não de alguns poucos. Que empolgue e não que seja vista com indiferença. Em nossas assembléias convencionais, em nível nacional, o número de igrejas que não envia mensageiros é maior do que o número das que enviam. Os alvos financeiros, inclusive os missionários, não estão sendo alcançados e o número de igrejas que não contribui sistematicamente é bem elevado. Isto é significativo. É um sinal que não pode ser ignorado. As igrejas estão insatisfeitas. Há mais gente querendo outro tipo de denominação. Que pode não ser igual a que idealizei, mas que, me parece, não é como a que temos, presentemente.
Isaltino Gomes Coelho Filho, pastor da IB do Cambuí, Campinas, SP
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
No balanço do samba do avião, lembrando a bossa nova e a música na Igreja Brasileira

por Nelson Bomilca
Meses atrás, estava visitando a exposição de comemoração do aniversário da bossa nova no Ibirapuera em São Paulo, que foi muito bem feita e se tornou um marco cultural na cidade. São Paulo é cenário de muitos movimentos culturais e artísticos. Impressionante o número de estrangeiros neste evento. Ouvir e ver vários filmes, documentários, depoimentos, contexto social, econômico e político da época, registros de Jobim, João Gilberto, Vinícius de Morais, Johnny Alf, Roberto Menescal, Nara Leão, Carlos Lira Edu Lobo, e tantos outros, trouxe boas lembranças e influências em minha vida e família, bem dentro de nossa casa e de nosso toca-discos. Período de final de ditadura, dos festivais da Record, das orquestrações do Ciro Pereira e do inovador Rogério Duprat. E no pano de fundo, as canções da dupla Lennon e McCartney e as tabelas de Pelé e Coutinho no Santos.
Minhas irmãs Marina e Dora receberam seus nomes de minha mãe, homenageando um dos seus compositores favoritos (Caymmi). Meu irmão Roberto “São José” Bomilcar se tornou um pianista que conhecia, ensinava e tocava tudo da música brasileira nos shows e nas faculdades, além do jazz que tanto ama. Fomos vizinhos dos irmãos Godói: Amilton (Zimbo Trio), Adilson, Amilson, do Hermeto Paschoal, e respiramos as aulas e o ambiente da escola de música CLAM, vendo nossos filhos iniciarem suas trajetórias na música cantando Tom Jobim, Edu Lobo, Ivan Lins e outros. Roberto acompanhou, durante anos, vários intérpretes da música brasileira em trios, quartetos, big-bands e também na Jazz Sinfônica. Ele estava naqueles dias da exposição no Ibirapuera, ao lado no prédio da Bienal, tocando para o público no espaço e programa especial da bossa nova “Piano ao cair da Tarde”, veiculado pela rádio Eldorado.
“Chega de saudade, que nada”, pensava eu, pegando carona no título do livro escrito de Ruy Castro, que veio de fato matar (ou alimentar?) esta saudade; queria mais curtir aqueles momentos mágicos da criatividade presentes em nossa maravilhosa cultura e dos movimentos criativos que brotaram nela e na história de nosso país.
Com 35 no evangelho e no contexto da igreja, tentei com mais alguns músicos, compositores e autores (Wolô, Pimenta, Guilherme Kerr, Aristeu Pires, Edy Chagas, Arthur Mendes, Jorge Camargo, João Alexandre, Edson e Tita Lobo, Carlinhos Veiga, Jorge Rehder, Janires, Josué Rodrigues, Gerson Ortega e tantos outros), contribuir e mudar um pouco do curso, do conteúdo e da sonoridade do que acontecia até então dentro dela.
Este movimento, em muitas décadas,continua fértil e crescente hoje na música de excelente conteúdo de Gladir Cabral, Gerson Borges, Stênio Marcius, Edílson Botelho, Glauber Plaça, Rubão, Vandilson Morais, Wanda Sá, Silvestre Kuhlman, Arlindo Lima, Mário Valadão, o surpreendente e renovador grupo Crombie, Roberto Diamanso, e outros, fora os excelentes músicos, arranjadores e produtores que temos hoje em nosso meio: Ervolini, Marcos Cavalcante, Thiago Pinheiro, Maurício Caruso, Daniel Maia, Wiliams Costa Junior, Marinho Brazil, Erlon Oliveira, Davi Lisboa Neto, Domene, César Elbert, Felipe Figueiredo, Hilquias Alves, Bruno Migotto, Marinho Andreotti, Cláudio Rocha, Marcos Godói, dentre tantos que poderíamos citar.
Mesmo assim, constato que quase sempre acordamos tarde, chegamos depois ou ocupamos os espaços atrasados no tempo, inclusive pela mentalidade fechada, retrógrada e engessada do segmento protestante brasileiro, que excluiu indevidamente - por décadas - as artes e a cultura dos “terrenos sagrados” em que poderíamos ou deveríamos atuar e estar na sociedade.
A profissão e a atuação do artista foram consideradas dignas pelo Deus Triúno e Autor da Criação, como todas as outras, e não foi discriminada. A Arte em si, em sua mais profunda essência e primeira manifestação, acontece junto do movimento criador e criativo (Gênesis) e é anterior a qualquer religião estabelecida na história do homem. Fomos criados para desfrutar dela na companhia do Criador, inspirador e realizador de tudo.
Neste último final de semana, saindo de São Paulo rumo a Fortaleza, um pouco deste movimento na história veio de forma generosa no balanço do avião que peguei. Fizemos escala no Galeão e pude contemplar mais uma vez a Baía da Guanabara, Corcovado, Pão de Açúcar. Estava esperando os que embarcariam no Rio, lendo a revista Cover Guitarra que havia comprado com uma matéria central sobre o trabalho do Maurício Caruso, querido irmão, arranjador e guitarrista que toca comigo na Confraria das Artes.
Estava grato a Deus pelo testemunho e pela presença dele exercendo sua profissão e sendo reconhecido no meio artístico. Sentado em minha poltrona e com emoção, vejo a ”tchurma” ou parte da bossa nova começando a entrar no avião: João Donato, Roberto Menescal, Os Cariocas, Marcos Valle e outros me fizeram desejar compor outro e novo "Samba do avião”, sabendo hoje que o Cristo Redentor vivo, não o da Guanabara, recebeu-me de braços abertos e habita faz 36 anos também no coração do colunista aqui, simples mortal, e que isto me fazia olhar todos ali com outros olhos, mas com a mesma admiração.
Mas, não foram somente eles que entraram neste avião: entraram também quatro personagens (irmãos) conhecidos da mídia evangélica e que fazem a chamada música gospel do segmento de mercado que tem deixado de lado o próprio evangelho, cada um de uma gravadora do meio. Não vi ali a simplicidade e a acessibilidade que encontrei naqueles outros que, com sua música e criatividade, mudaram a sonoridade da música no Brasil e influenciaram o mundo com a bossa. A fauna e a flora ali naquele vôo, e não tinha para onde correr. Não vou citar os do mundo gospel para não pegar carona ou popularizar indevidamente este artigo. Todos os do “gospel” sentaram para trás no avião, dois deles com “seguranças”, e pensei eu com meus botões criticamente... atrás de novo... na história passada, na recente, no avião também... mas em matéria de postura soberba, estavam numa altitude similar ao do vôo... que tristeza.
Fiquei ali na parte do meio do avião, já que tínhamos quase três horas para chegar, puxando papo com um ou outro da bossa nova, ouvindo histórias, e falando um pouco da música popular cristã. Tento deixar um acervo no programa que faço na rádio Transmundial (Sons do Coração). Os da bossa -puxa - gente simples mesmo e atenciosos......como temos que aprender! Já sabia que os mais familiarizados com o evangelho eram João Donato e o próprio Menescal, graças à influência e ao testemunho da excelente violonista e cantora Wanda Sá, contemporânea de bossa, nossa irmã de fé.
O avião pousou e terminara aquela curta, inusitada e inesquecível viagem. Não poderia assistir ao show deles à noite, pois tocaria em outro evento no mesmo horário, falando sobre a “Arte a serviço do reino de Deus” em nossa pequena e tímida história. Porém, rica e emocionante. Simultaneamente na sexta onde falei, estava acontecendo aqui em São Paulo o II Fórum do Cristianismo Criativo, promovido pela W4 Editora, com o tema do livro do Frank Schaeffer: “Viciados em mediocridade?”, com a participação do Jorge Camargo e o Gerson Borges, mediados pelo Pavarini. O Gladir Cabral não poderia vir mais, pela tragédia das chuvas e dos deslizamentos acontecidos em Santa Catarina. Fica para a próxima!
Fiquei feliz por ter este espaço aberto para reflexão, conscientização, ensino, crítica e desafio para os artistas cristãos ocuparem seus espaços, fazendo arte com beleza, expressões culturais diversas e integridade. Não deveríamos ter saído dos espaços culturais, do exercício profissional, para inclusive sermos sal e luz. Estamos retomando e ocupando lugar e presença. Mas com muito atraso! Não sejam, então, nossas sinceras pretensões utópicas. Façamos singelamente o que é possível, com os pães e os peixes de que dispomos, “cada macaco no seu galho”, mas numa mesma floresta e aldeia.
Abri o jornal de sábado de manhã em Fortaleza, depois da quinta e sexta inusitadas e vi anunciado dois shows do Tom Zé marcados para a noite e no domingo também. Fiquei alegre e esperançoso, pois sabia que o Daniel Maia, amigo e companheiro de canções, estava no time deste “ícone” da música brasileira. Ele é o arranjador e guitarrista do Tom hoje. “Ó nóis aqui traveis.....”. Artistas precisam também de orações, encorajamento e acompanhamento onde estiverem.
Estamos marcando presença como bons artistas profissionais e, de quebra, levando a luz de Jesus para brilhar no meio artístico sempre que possível. Nossa ausência não ajuda em nada. É terreno igualmente sagrado a ser ocupado. São sinais de esperança! Nem tudo está perdido! Adoração a Deus é também nossa presença no mundo das artes com excelência . Tem muita coisa boa que vem acontecendo e projetos surgem pela frente!
Bom, agora no bom sentido da expressão, chega de saudade. Desafios novos para fazer no mundo das artes e no mundo contemporâneo. Resgatar e ocupar espaços. Aprender com a história e o conteúdo da cultura e da arte. Novos sons, novos tons, novas telas, novas palavras, novas cores, novos textos, novas peças, novas coreografias, nova estética, novas danças, novas contextualizações, regadas e inspiradas pelo Criador de ontem, hoje e sempre!
Nelson Bomilcar é pastor, músico, compositor, conferencista e escritor.
É missionário da Igreja Batista Kerygma (Curitiba) e da Igreja Evangélica
da Comunhão (SP). É autor do livro “O melhor da Espiritualidade Cristã”,
é também o idealizador e apresentador do programa de rádio
“Sons do Coração” pela rádio Transmundial.
É fundador do Instituto Ser Adorador e
membro do Conselho Editorial da W4 Editora.
Texto Públicado em: Cristianismo Criativo
Não destruamos as coisas divinas ou as seculares
A revista “The Chesterton Review” de maio de 1992 republicou um ensaio de G. K. Chesterton chamado “As raízes do mundo” (The Roots of the World). Esse ensaio foi originalmente publicado no “The Daily News”, em Londres, no dia 17 de agosto de 1907. Nesse mesmo período Chesterton estava escrevendo sua obra “Ortodoxia” (Orthodoxy), que foi publicada em 1908.
O ensaio começa com uma espécie de parábola. Padre Ian Boyd CSB, em sua breve introdução ao texto na “The Chesterton Review”, observa que esse foi um ensaio muito famoso e que Chesterton costumava usar tais parábolas “como forma de ensinar verdades morais”. Suspeito que ele as usava também como um modo de ensinar as verdades metafísicas em que se baseiam as verdades morais.
Em suma, Chesterton discorria sobre a conexão existente em todo o universo, desde as coisas mais elevadas até as coisas mais inferiores. O que não podemos fazer é mudar Deus, mas, caso tentemos transformar Deus em algo que ele não é, acabaremos por mudar a nós mesmos ou a mudar o mundo. Isso quer dizer que a lógica da mudança de uma coisa irá, necessariamente, resultar na mudança de outra coisa no mundo. Se pensarmos Deus de modo incorreto, pensaremos incorretamente o homem.
A estória é um modo novo de narrar a queda do homem do Paraíso, descrita no livro do Gênese. Há um jardim onde cresce uma estranha flor em forma de estrela e um menininho que está proibido de arrancar as plantas. Ele pode tirar as flores, mas não arrancar as plantas pela raiz.
Naturalmente, o menino, um reflexo do jovem Agostinho, quer algo mais nesse mundo do que arrancar a flor com raiz e tudo. Os mais velhos dão a ele inúmeras razões, não muito boas, para não arrancar a planta. Mas o menino tem um motivo “bobo” para querer arrancar a planta pela raiz, independente de qualquer argumentação. Ele explica que “a verdade exige que eu deva arrancar a coisa pela raiz para ver como ela está crescendo”.
Os pais e professores do menino nunca lhe disseram o verdadeiro motivo dessa proibição, ou seja, o fato de que ao arrancar a planta pela raiz, ele “mataria a planta e nada é mais verdadeiro numa planta morta do que a planta viva”. Em outras palavras, teria ajudado muito se os pais dessem ao menino uma razão precisa para a proibição, mas mesmo que não o fizessem, a proibição permanecia. Já que a planta morta não iria revelar a verdade sobre si mesma, o menino arriscou-se ao castigo por violar a proibição e correu o risco de perder a própria verdade, que não poderia ser descoberta por outro método.
Parece que, numa noite escura, o menino se esgueirou pelo jardim e começou a arrancar a planta pela raiz. De repente, coisas estranhas começaram a acontecer. Primeiro, o menino não conseguia arrancar a planta. Mas enquanto puxava, a grande chaminé de sua casa caiu. Ele puxou novamente e o estábulo caiu. Gritos de agonia começaram a ser ouvidos. O próprio castelo onde morava ruiu. Esse caos pareceu atemorizar o menino, mas ele cuidou de não dizer nada sobre o estranho incidente com a flor. Ele ainda não queria obedecer a proibição.
O menino cresceu e decidiu tentar arrancar a planta novamente. Agora ele era um político e o governante local. Ele se cercou de um grupo de homens fortes e proclamou: “Vamos decifrar o mistério dessa erva daninha irracional”. Então, começou a puxar a planta com grande força. De repente, caíram a torre Eiffel, a muralha da China e a estátua da liberdade. “A Catedral de St. Paul matou todos os jornalistas na Fleet Street”. O governante lembrou-se da primeira experiência no jardim.
Nas várias tentativas, os homens fortes conseguiram derrubar metade dos prédios do país do governante, mas, ainda assim, não puderam arrancar as raízes da planta. Finalmente, o governante desistiu de seu projeto, ficando bastante frustrado. No entanto, chamou seus pastores e mestres. Ele os culpava por não lhe dizerem que não poderia tirar a raiz daquela planta, e que, caso tentasse, destruiria tudo ao seu redor. Tudo o que os sábios o disseram foi que não fizesse aquilo. Agora o governante via os resultados, mas não admitia sua responsabilidade.
Essa parábola, é claro, trata do cristianismo e das tentativas dos homens secularizados em se livrarem dele. Ao atacar a religião, os defensores do secularismo acabaram, não por eliminar a religião, mas conseguirar arrancar as raízes “da vinha e da figueira, de todos os jardins, de cada homem comum”. De certo modo há uma conexão entre religião e a vida do dia-a-dia.
Somos advertidos sobre a existência dessa relação e conseguimos obter algumas razões mal fundamentadas. Caso ponhamos em dúvida o erro ou acerto dessas razões, o que poderemos fazer é seguir adiante e tentar tirar as raízes da religião, acabando, nessa tentativa, por destruir o próprio coração da vida civilizada. Não pretendemos esse resultado, mas é o que acaba por acontecer. “Os secularistas não foram bem-sucedidos em destruir as coisas divinas, mas tiveram sucesso em destruir as coisas seculares”.
Os “inimigos da religião”, concluiu Chesterton, são como o menininho. Eles não podem deixá-la quieta. É uma espécie de fruto proibido, um desafio à autonomia deles. Eles vêem todas as proibições como meramente arbitrárias, como “algo violento”, não como algo razoável. Não podem acreditar que as desordens derivam das intromissões nas proibições solenes. “Eles diligentemente tentam estraçalhar a religião. Não podem arruinar a religião, mas conseguem destruir todo o resto”.
Mas, por que eles não conseguem destruir a religião? Os secularistas e os que se opõem à religião não podem tocar em seus axiomas, que são dogmas inteligíveis. Os axiomas permanecem como são, não importantdo o que aconteça no mundo. Ao não possuir as doutrinas da fé, eles necessariamente se comprometem com outras doutrinas. Defender que o homem não é feito à imagem de seu criador é tão dogmático quanto defender que ele o é.
Chesterton deu dois exemplos, o caso do pacifista e o do evolucionista. O pacifismo é uma doutrina sobre a coerção. O resultado disso é uma alternativa “intolerável e ridícula” onde “não devo culpar um rufião, nem elogiar o homem que o golpeia”. A teoria tem conseqüências estranhas.
Por causa das inúmeras gradações na natureza, sobre a qual está baseada a teoria evolucionista, não podemos, segundo ela, ser forçados a “negar a personalidade de Deus, pois um Deus pessoal também pode trabalhar com gradações, como de qualquer outro modo”. Então, permanece a teoria. No entanto, o que o evolucionista faz, se a teoria for levada ao pé da letra, não é negar a personalidade em Deus, mas negá-la, por exemplo, em João.
Se a evolução é verdadeira, João está contido nela. Ou seja, ele é ele mesmo, mas está constantemente “aparando as arestas”. Ele está, nesse exato momento, evoluindo e se transformando em algo diferente. Se tudo está em evolução, até nós mesmos, até mesmo o João, então, nessa mesma lógica, nós não somos realmente nós mesmos. O que por fim deve ser negada não é a personalidade em Deus, mas “a existência de um Sr. João individual”.
Se queremos que o João exista como João, então ele não deve estar, nem mesmo de leve, num processo de se transformar no Sr. Silva, ou em alguma espécie superior. A antiga religião quer que o João permaneça João. Se tentarmos arrancar as raízes dessa doutrina da religião, não terminaremos por eliminar a doutrina de que João é João, mas nos forçaremos a olhar para ele como “não-João”. No caso evolucionário, nessa lógica, o mundo está cheio de coisas, onde incluimos o João, que não são, realmente, elas mesmas.
Portanto não podemos, em verdade, destruir as coisas divinas, mas certamente podemos destruir as coisas humanas. Se observarmos as coisas humanas e seculares sendo destruídas, devemos começar a suspeitar de que estamos violando algumas proibições. Devemos suspeitar de que se arrancarmos determinada flor, iremos arrancar o mundo. Também não devemos esquecer de que as proibições estão, da mesma forma, enraizadas na verdade que o menininho estava buscando. A verdade é que ele não poderia conhecer a verdadeira realidade da flor se a matasse, arrancando-a do solo. A proibição teria salvado o mundo. A razão poderia ter salvado a flor.
Nas raízes do mundo repousa, incomodamente, a vontade que quer somente a sua própria verdade. As proibições nos dizem que há um mundo que nós, e o João, queremos, mesmo que não seja o mundo que estamos construindo. A flor já estava lá. João já era João. Os Mandamentos, as proibições, foram projetados para manter os dois. Mesmo se demolirmos todo o mundo, não acharemos nossa verdade, mas somente a Verdade. Há somente uma teoria, até onde sei, que permite João ser João. Essa teoria ainda é chamada cristianismo. Creio que esse é o sentido da parábola de Chesterton sobre as raízes do mundo.
Tradução de Márcia Xavier de Brito
Texto retirado do site da CIEEP
"Para chegar a Deus você precisa passar pelo homem. Para Deus chegar em você Ele também precisa passar pelo homem. Não existe contato direto com Deus, isto é, todo contato entre o humano e o divino é mediado por um outro humano. O humano é ponte entre o humano e o divino. O humano é ponte entre o divino e o humano. Toda vez que você pretender um contato imediato com Deus, deixando de lado a ponte humana, isto é, a horizontalidade que Ele mesmo providenciou, você vai cair num abismo sem fim, isto é, vai experimentar o vazio, aquele sentimento de estar falando com ninguém. É isto o que o Evangelho ensina quando afirma que “existe apenas um Mediador entre Deus e os homens: Cristo Jesus, homem”
(1Timóteo 2.5).
“A distância que vai entre a janela e os meus olhos determina o que vejo lá fora na rua. Se fico mais perto, a visão se alarga; se fico de longe, a visão se estreita. Se vou à esquerda, enxergo a praça; se vou à direita, enxergo a torre. Sou eu que determino o que aparece lá fora na rua para servir de panorama aos meus olhos. Mas nem por isso é falso ou errado aquilo que vejo e descrevo, pois não sou eu que crio as coisas que aparecem lá fora. Já existiam antes de mim. Não dependem de mim. É útil e até necessário que cada um defina bem clara e honestamente aquilo que vê pela sua janela. Isso redundará em benefício da análise que se faz da realidade da vida. O que me consola é que todos somos assim. Bem limitados e condicionados pelos próprios olhos, dependentes uns dos outros. É trocando as experiências, numa conversa franca e humilde, que nos ajudamos a enxergar melhor as coisas que vemos, e a romper as barreiras que nos separam sem razão. Pois ninguém é dono da verdade. Intérprete só”.
Carlos Mesters
